Os miúdos (okay, é mais as miúdas) adoram o Frozen. (Como não gostar?) Quando temos algum tempo livre, mostro-lhes algumas das canções deste filme em inglês. Numa dessas canções, passa-se a cena em os pais da Ana e da Elsa morrem.
Os meus alunos entenderam que os pais das meninas morrem. Alguns fizeram questão de comentar. O que disseram? Frases curtas e simples, como só as crianças sabem. Do tipo, "os pais morreram". Alguns acrescentavam um ohhh", mas a coisa ficava por ai. Excepção (há sempre uma) para o episódio que vou narrar.
Certo dia, depois de vermos o dito vídeo, uma menina lembrou que os pais da Elsa e da Ana tinham morrido, mas que não fazia mal porque estavam no céu. Concordei e acrescentei que eram estrelinhas a tomar conta das filhas deles. Alguém lembrou-se dos anjinhos.
Boa, afinal as pessoas que vão para o céu transformam-se em estrelas ou anjos?!
Foge, professora teacher, foge antes que eles se lembrem de perguntar isso. Lá disse que eram estrelinhas e anjinhos e tentei mudar de assunto, mas ouço a palavra inferno. Quem falou? Parece-me que foi o Eduardo.
- O que estás a dizer, Eduardo?
- Há o inferno.
- E...?
- Quem porta-se mal vai para o inferno.
- O que é o inferno?
- É um sítio que tem fogo e onde vão os que se portam mal.
O Eduardo disse isto, como aposto, lhe disse a pessoa que lhe vendeu a ideia. Num tom sério de quem quer meter medo.
Infelizmente, não lembro exactamente o que respondi ao Eduardo. Mas penso ter-lhe descartado essa ideia. Não gosto disso do inferno e muito menos dessas ameaças que se colocam na cabeça das crianças.
A isso chama-se amedrontar para que as crianças façam o que os adultos querem. É um caminho fácil e cobarde. Muitas vezes também é perigoso. Por exemplo, dizer que os ciganos são maus com certeza criará nos mais novos o preconceito por esta raça.
Não é fácil explicar a morte. É mesmo impossível, porque o que sabem os vivos disso?! Mas também não é nada fácil desmontar ideias inconcebíveis da cabeça dos miúdos, provavelmente, ditas por aqueles que os miúdos mais respeitam.
Enfim, estar na aula a relaxar com um vídeo querido e, de repente, começar a discutir a morte (e outras questões daí decorrentes) não é como passar do céu para o inferno. Não é. Mas também não andará longe.
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