sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Dente

Primeiro dia de aulas numa escola nova, com alunos novos. Como iria correr? Gostariam eles da nova teacher? Entrei na sala e pedi que nos sentássemos na manta. Ficamos todos mais próximos. Expliquei que vinha dar aulas este mês em vez da outra teacher. Disse-lhes o meu nome e quis saber o deles. Ao apresentar-se, a Leonor disse que, neste mesmo dia, tinha ficado sem um dente. Coisa normal nestas idades, mas mesmo assim fascinante para eles. Não tardou que quase todos sorrissem para mim a mostrar as janelas e as portas nos seus sorrisos. Alguns contaram ainda como tinha perdido o dentes. Pouco depois, a Leonor diz que quer mostrar o dente. Entendi que ela queria que visse a portinha que se formou na boca dela. 

- Depois, Leonor, agora vamos fazer um jogo. 

Ela deve ter insistido mais duas vezes. 

- Leonor, quando nos levantarmos e formos para as mesas tu mostras. 

De facto, mudamos de sítio e a menina pediu para mostrar o dente. Tinha de o ir buscar à mochila. Sim, ela tinha o dente guardado. Bom, perto do final da aula, quando todo o trabalho já tinha sido feito, deixei-a ir buscar o seu tesouro. 

Lá vinha ele, bem pequenino, com uma pontinha de sangue, num saco pequeno transparente. Mais parecia a prova de um crime, tal o modo de acondicionamento. 

Pensei: será que os infantários têm destes saquinhos para os meninos guardarem os seus dentes? 

Inevitavelmente, lembrei daquelas pessoas que guardam os dentes e mandam pendurá-los em colares ou brincos. Lembro-me das minhas primas terem os dentes pendurados (nos brincos) nas orelhas. Eu nunca tive e, na altura, se bem me recordo, queria ter. Mas os meus pais não achavam piada a isso. (Obrigada pais.) 

Gosto disto de lembrar, através dos meus alunos, a minha infância (e, no fundo, a de toda a gente). Parece que foi há uma vida, mas não. Depois, é bonito recordar coisas que hoje não nos passam pela cabeça. Eu lá me iria lembrar de como era perder os dentes?! Já me tinha esquecido de como era andar com o dente preso por fio e, daquela vez, em que colocaram uma linha para puxar o dito... Mesmo da moda dos dentes na ourivesaria (já passou de moda, certo?)...

Como uma coisinha tão pequena traz grandes memórias!! Histórias e mais histórias. Cheira-me que vêm ai muitas mais. O primeiro dia de aulas, na escola nova, com alunos novos, correu bem. Pelo menos eles disseram que podia voltar. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Simples

Com alguma melancolia na voz a Beatriz disse:

- Eu tinha um piscina, mas ela estragou-se e o meu avô não tem dinheiro para comprar uma nova. 

Então o Gabriel, atencioso, deixa a sugestão:

- Tens de dizer ao teu avô para ter dinheiro. 

Acho que a Beatriz aceitou a dica. Acho que o avô desta menina também aceitaria de bom grado, fossem as coisas tão simples. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Só eles...

Perguntar-lhes: 

What's your name?

Responderem:

My name is Sonic Azul

Isto na sala de aula e, depois, em frente a uma plateia na festa de finalistas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"E o burro sou eu?!"

Estava entretida a perguntar os animais em inglês... Nisto o Hugo, olhando para o material da aula atrás de mim, diz:

- Uma zebra?!

Revisão mental: em casa tinha, efectivamente, animais na cesta que hoje trouxe para a escola; mas deixei-os lá; mais, a zebra não era um deles, apesar de ter uma...

Olhei para trás para conferir.

De facto, estava lá um animal de peluche. Estava o meu burro que também serve se estojo. 

- Ah o burro! Ó Hugo aquilo é um burro, não uma zebra. - Digo isto com um sorriso.

O Hugo parou e pôs-se a pensar. Não deve ter achado graça ao meu reparo. Mas eis que começa a rir e:

- Ah ah ah é um burro, eu sei! Apanhei-te. Apanhei-te uma pinga de leite...

- Hein?

- Estava a dizer que era uma zebra, mas eu sabia que era um burro...ah ah ah. Era só para tu olhares...

Claro Hugo. 
"E o burro sou eu?!"

quinta-feira, 25 de junho de 2015

De hoje

Fui para a aula com receio, confesso. Desde ontem estou com um inchaço na cara. Falo bem, estou bem, mas pensei que pudesse impressionar os alunos. Claro que isso não aconteceu... (Mais uma vez estava a esquecer a característica-mor da criançada, a capacidade de serem imprevisíveis!)

Comecei por estar com os mais novos, os 4 anos. Bom, de todos os "4 anos" que tenho, esta é a turminha mais sensível, mais "bébezinha". Foram entrando.... Olhei para elas - as meninas foram as primeiras a entrar - nada... Nada... Falo eu? Espero que digam alguma coisa?? 

Saudei-os e avancei:
- Olhem para mim, não notam algo diferente na teacher?
- Nãaaaao!
 
Oi? Isto não é um inchaço, é um senhor inchaço!

- Olhem para a minha cara, não estou diferente?
- Está vermelha! 

Hum...sim, é normal, andei a pé com este sol...

- Olhem aqui [apontei para o inchaço]... 
- Aaaaah!
- A minha cara está inchada, tirei um dente... Fui ao dentista... Já alguém foi ao dentista? 

A pergunta foi a minha tentativa de dispersar as caras estranhas que eles colocaram. Bom, depois veio o turbilhão de respostas:

- Siiiiiiim!
- Não!
- Já fui com a mãe, mas ela é que ia ao dentista...
- Eu lavo os dentes todos os dias para não ter de ir ao dentista! 
- Eu nunca tirei um dente!
- Eu euuuuu eu... a mãe nunca mais compra a escova! 

Adoro os meus alunos. Adoro estes comentários. 
Adoraria esmiuçar cada uma dessas respostas! Mas, pronto, não há tempo... Tinha aulas para dar, tarefas para concluírem... 

Mas - e confesso - quando o Gaspar veio, sorrateiramente, ter comigo a pedir colo, não resisti a tanta fofice. Lá o sentei no meu colo enquanto dava por concluída a aula. (Isto, para quem não está familiarizado com o universo infantil, foi um tanto perigoso. Arrisquei a ouvir mais de dez miúdos a pedir colo!) 

O grupo seguinte, mais velhos com 5 anos, não notou nada de diferente na sua professora teacher... Pelo menos não o comentaram. Também não o fiz. Já tinha percebido que o melhor é esperar pela reacção das crianças e depois agir mesmo que se desperdicem comentários preciosos!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Uma questão de estilo !?!

Todos sentados, lado a lado, na manta. Perguntei a todos, individualmente, se queriam participar, com uma apresentação em inglês, na festa de final de ano. Se estivessem dispostos a isso tinham de responder "sim". Um aceno de cabeça não bastava. Precisava de ouvir da boca deles a concordância. Precisava também que eles sentissem que dizer que concordam é uma coisa séria, é um compromisso. 

Ouvi bastantes "sim" seguidos até... [Tinha de haver um, não é?] 

- Eu não sei se quero participar...

Ainda o Martim não tinha terminado a frase já eu estava a fazer um esforço para não rir à gargalhada. Obviamente, este menino tinha de colocar alguma interjeição... Digamos que o Martim não diz logo que sim à primeira, gosta de reflectir e depois lá se entrega a algo novo...

- Está bem, mas tens de dizer porquê.
- Eu não quero ir.
- Tudo bem, Martim, não faz mal. Mas queria que dissesses porque não queres participar. 
- Olha...olha...porque temos de ir com calças e eu quero ir de calções.

Oi??????

- Martim, eu nem sequer falei que tínhamos de levar determinada roupa...
- Pois, mas a professora Inês disse.
- Não sei de nada disso, mas tu é que sabes. Podes, pelo menos, ver o que vamos fazer e depois decidir? 
- Estaaaaá bem.

Continuei a minha busca pelas confirmações... Sim, sim, sim e mais sim e sim. No final só o Martim havia demonstrado não estar muito interessado. Mas, pouco tempo depois, chamou-me:
- Teacher, olha eu vou também.

O Martim rendeu-se mais uma vez. Espero que os ensaios corram bem e ele não volte atrás na sua palavra. Se calhar há quem possa achar que ele seja esquisito por colocar restrições ou não se entregar à primeira... Eu não penso assim, acho mesmo que demonstra carácter. Coloca as suas dúvidas (muitas delas expõe os seus medos) e, só depois, toma uma decisão. Não quero com isto dizer que os outros, os que dizem logo sim, não demonstram carácter. Nada disso. Apenas gosto de ver alguém pequeno interrogar-se e, mesmo com receio, seguir em frente. (Mesmo quando esse receio é, aparentemente, usar calças.)

sábado, 20 de junho de 2015

Morrer de Amor

Este título é, à primeira vista, muito piroooooso, mas é a verdade... Outro dia ia morrendo de amor.

Cheguei a uma escola e fui ter com os meninos todos à sala. Fui "atacada" com perguntas, pedidos e, "pior", abraços, abraços com beijos, abraços apertados que querem sufocar... 

Tentei sentar os meus alunos na manta, porque tinha de lhes falar sobre a festa de final de ano... Ui acho que foi ainda pior!! Lá me sentei para que me imitassem. Assim o fizeram, mas alguns continuaram de pé e, como macaquinhos, saltaram para cima de mim. 

Por vezes não é nada fácil gerir este afecto. Como dar atenção a todos (e não são poucos) e, no final, sair ilesa? Não é fácil retribuir esse carinho ao mesmo tempo. Espero que nenhum desses grandes queridos fique a pensar que a sua professora teacher não gosta desses gestos ou, mais grave, não gosta deles... 

Bom, esse não é mesmo o caso. Acontece apenas que há alturas na vida em que tudo o que temos de fazer é sobreviver...mesmo que seja a uma onda de coisas boas!