segunda-feira, 29 de junho de 2015

"E o burro sou eu?!"

Estava entretida a perguntar os animais em inglês... Nisto o Hugo, olhando para o material da aula atrás de mim, diz:

- Uma zebra?!

Revisão mental: em casa tinha, efectivamente, animais na cesta que hoje trouxe para a escola; mas deixei-os lá; mais, a zebra não era um deles, apesar de ter uma...

Olhei para trás para conferir.

De facto, estava lá um animal de peluche. Estava o meu burro que também serve se estojo. 

- Ah o burro! Ó Hugo aquilo é um burro, não uma zebra. - Digo isto com um sorriso.

O Hugo parou e pôs-se a pensar. Não deve ter achado graça ao meu reparo. Mas eis que começa a rir e:

- Ah ah ah é um burro, eu sei! Apanhei-te. Apanhei-te uma pinga de leite...

- Hein?

- Estava a dizer que era uma zebra, mas eu sabia que era um burro...ah ah ah. Era só para tu olhares...

Claro Hugo. 
"E o burro sou eu?!"

quinta-feira, 25 de junho de 2015

De hoje

Fui para a aula com receio, confesso. Desde ontem estou com um inchaço na cara. Falo bem, estou bem, mas pensei que pudesse impressionar os alunos. Claro que isso não aconteceu... (Mais uma vez estava a esquecer a característica-mor da criançada, a capacidade de serem imprevisíveis!)

Comecei por estar com os mais novos, os 4 anos. Bom, de todos os "4 anos" que tenho, esta é a turminha mais sensível, mais "bébezinha". Foram entrando.... Olhei para elas - as meninas foram as primeiras a entrar - nada... Nada... Falo eu? Espero que digam alguma coisa?? 

Saudei-os e avancei:
- Olhem para mim, não notam algo diferente na teacher?
- Nãaaaao!
 
Oi? Isto não é um inchaço, é um senhor inchaço!

- Olhem para a minha cara, não estou diferente?
- Está vermelha! 

Hum...sim, é normal, andei a pé com este sol...

- Olhem aqui [apontei para o inchaço]... 
- Aaaaah!
- A minha cara está inchada, tirei um dente... Fui ao dentista... Já alguém foi ao dentista? 

A pergunta foi a minha tentativa de dispersar as caras estranhas que eles colocaram. Bom, depois veio o turbilhão de respostas:

- Siiiiiiim!
- Não!
- Já fui com a mãe, mas ela é que ia ao dentista...
- Eu lavo os dentes todos os dias para não ter de ir ao dentista! 
- Eu nunca tirei um dente!
- Eu euuuuu eu... a mãe nunca mais compra a escova! 

Adoro os meus alunos. Adoro estes comentários. 
Adoraria esmiuçar cada uma dessas respostas! Mas, pronto, não há tempo... Tinha aulas para dar, tarefas para concluírem... 

Mas - e confesso - quando o Gaspar veio, sorrateiramente, ter comigo a pedir colo, não resisti a tanta fofice. Lá o sentei no meu colo enquanto dava por concluída a aula. (Isto, para quem não está familiarizado com o universo infantil, foi um tanto perigoso. Arrisquei a ouvir mais de dez miúdos a pedir colo!) 

O grupo seguinte, mais velhos com 5 anos, não notou nada de diferente na sua professora teacher... Pelo menos não o comentaram. Também não o fiz. Já tinha percebido que o melhor é esperar pela reacção das crianças e depois agir mesmo que se desperdicem comentários preciosos!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Uma questão de estilo !?!

Todos sentados, lado a lado, na manta. Perguntei a todos, individualmente, se queriam participar, com uma apresentação em inglês, na festa de final de ano. Se estivessem dispostos a isso tinham de responder "sim". Um aceno de cabeça não bastava. Precisava de ouvir da boca deles a concordância. Precisava também que eles sentissem que dizer que concordam é uma coisa séria, é um compromisso. 

Ouvi bastantes "sim" seguidos até... [Tinha de haver um, não é?] 

- Eu não sei se quero participar...

Ainda o Martim não tinha terminado a frase já eu estava a fazer um esforço para não rir à gargalhada. Obviamente, este menino tinha de colocar alguma interjeição... Digamos que o Martim não diz logo que sim à primeira, gosta de reflectir e depois lá se entrega a algo novo...

- Está bem, mas tens de dizer porquê.
- Eu não quero ir.
- Tudo bem, Martim, não faz mal. Mas queria que dissesses porque não queres participar. 
- Olha...olha...porque temos de ir com calças e eu quero ir de calções.

Oi??????

- Martim, eu nem sequer falei que tínhamos de levar determinada roupa...
- Pois, mas a professora Inês disse.
- Não sei de nada disso, mas tu é que sabes. Podes, pelo menos, ver o que vamos fazer e depois decidir? 
- Estaaaaá bem.

Continuei a minha busca pelas confirmações... Sim, sim, sim e mais sim e sim. No final só o Martim havia demonstrado não estar muito interessado. Mas, pouco tempo depois, chamou-me:
- Teacher, olha eu vou também.

O Martim rendeu-se mais uma vez. Espero que os ensaios corram bem e ele não volte atrás na sua palavra. Se calhar há quem possa achar que ele seja esquisito por colocar restrições ou não se entregar à primeira... Eu não penso assim, acho mesmo que demonstra carácter. Coloca as suas dúvidas (muitas delas expõe os seus medos) e, só depois, toma uma decisão. Não quero com isto dizer que os outros, os que dizem logo sim, não demonstram carácter. Nada disso. Apenas gosto de ver alguém pequeno interrogar-se e, mesmo com receio, seguir em frente. (Mesmo quando esse receio é, aparentemente, usar calças.)

sábado, 20 de junho de 2015

Morrer de Amor

Este título é, à primeira vista, muito piroooooso, mas é a verdade... Outro dia ia morrendo de amor.

Cheguei a uma escola e fui ter com os meninos todos à sala. Fui "atacada" com perguntas, pedidos e, "pior", abraços, abraços com beijos, abraços apertados que querem sufocar... 

Tentei sentar os meus alunos na manta, porque tinha de lhes falar sobre a festa de final de ano... Ui acho que foi ainda pior!! Lá me sentei para que me imitassem. Assim o fizeram, mas alguns continuaram de pé e, como macaquinhos, saltaram para cima de mim. 

Por vezes não é nada fácil gerir este afecto. Como dar atenção a todos (e não são poucos) e, no final, sair ilesa? Não é fácil retribuir esse carinho ao mesmo tempo. Espero que nenhum desses grandes queridos fique a pensar que a sua professora teacher não gosta desses gestos ou, mais grave, não gosta deles... 

Bom, esse não é mesmo o caso. Acontece apenas que há alturas na vida em que tudo o que temos de fazer é sobreviver...mesmo que seja a uma onda de coisas boas! 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Why I Love My Job

Numa das escolas, cujo tema da festa de finalistas é a tradição, os pais vão fazer uma marcha. Convidaram-me para madrinha da marcha. Isso significa desfilar com um arco na mão e um vestido no corpo. Vestido comprido e branco com rosas vermelhas e folhas verdes em relevo.
 
Fui ao ensaio geral provar esse figurino e fiquei mais um pouco a ver os pais trabalhar. Canção engraçada. Marcha bonita. Os miúdos vão adorar. Nem quero imaginar quando me virem (e aos professores de música) a entrar no recinto...
 
Enquanto os pais ensaiavam, brinquei um pouco com dois alunos que lá estavam, o Dinis e a Margarida. Foram para dentro da casinha do recreio. Lá dentro tinha bolas, argolas e umas correntes de plástico que davam para desmanchar. Desconfio que nessa noite começaram a olhar-me de maneira diferente. Ensinei o Dinis a equilibrar-se com uma argola na cabeça; desmanchei as correntes a pedido da Margarida. Depois brinquei com os dois. Cheguei a entrar, a pedido deles, dentro da casinha. Na parte mais alta consegui ficar de pé sem bater com a cabeça no teto da habitação. Eles ficaram admirados... Disse, então, naquela brincadeira que sou a Teacher Gigante. Eles são - os dois - o João Ratão. (Como a Margarida estava à janela chamei-lhe Carochinha e ao Dinis João Ratão, mas a Margarida também quis ser o João, porque não queria ser menina...).
 
Pouco tempo depois ouço "Teacher Gigante"... queriam mais brincadeira. E brincamos. Colocaram-me as correntes e diziam que tinha de fazer o que queriam. Danço, porque foi o que pediram. Depois trocámos de papéis. Depois foi tempo de eu ir embora.
 
Esta semana, antes da festa, vou estar com eles. Será que se vão lembrar? Será que vão querer continuar e eu vou ter de dizer que não, porque estamos em aula? Verei.
 
Às tantas vão esquecer-se (se bem que as crianças têm ótima memória), não faz mal. Eu não esqueço. É por estas pequenas experiências que amo o trabalho que tenho. Brincar, falar a sério, brincar outra vez. Inventar, ensinar, vê-los crescer. Ver-me crescer, sem deixar de ser, também eu, criança.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Ela não vê nada...

Cantamos o Hello Teacher. Depois pedi que dissessem o nome. Um perguntava, o próximo respondia. What's your name? My name is... Assim foi. Chegou a minha vez.
- What's your name? - Perguntou-me alguém (não lembro quem).
- My name is... - Lá disse o meu nome.
Eles acham uma piada quando o faço...
- Tens o nome da outra professora! - Disse o Tiaguinho.
 
Oi??
 
Achei estranho, não estava a ver outra professora com o mesmo nome naquela escola... Então perguntei:
- Qual professora?
- A de inglês que usa óculos!
 
Pronto, estava desvendado o mistério. Essa professora era, precisamente, eu!
Nesse dia não levei os óculos, mas as lentes. Por isso, o rapaz pensou que havia duas professoras de inglês, a de óculos e a sem óculos. (Estranho tendo em conta que não era a primeira vez que eles me viam sem óculos.) 
 
De facto, os miúdos ficam confusos, por eu usar óculos ou lentes. No início expliquei-lhes que não levava óculos, mas via bem. Tinha posto nos olhos umas coisinhas chamadas lentes e, por isso, não precisava de óculos. O António percebeu, porque a mãe também usa, disse ele. O outros, bom, os outros disseram que entendiam, mas tenho as minhas dúvidas....
 
Certo dia, em determinada escola, ouço a Rita sussurrar aos colegas:
- Ela não vê nada...
- Vejo sim, menina Rita! - respondi, porque aquele comentário antevia alguma asneira.
 
Outra vez, também na mesma escola, estou a entrar na sala onde estão todos os alunos, quando ouço:
- Não trazes óculos. Já vês bem?
 
Ainda há poucos dias, noutra escola, um aluno perguntava porque uso óculos só as vezes. (Estávamos a meio do ensaio da festa de final de ano. Prometi-lhe uma explicação para depois, mas acabou por não acontecer.)
 
Não deve ser fácil para eles. Realmente, não deve. Como é teacher? Afinal vês bem ou não?! Usas os óculos só quando te apetece? Não devem os óculos ser postos sempre, todos os dias?
Pudesse eu mostrar o que são lentes de contacto e as dúvidas deles dissipariam. Mas não me parece boa ideia... Se para uma adulto ver uma lente a ser colocada (ou retirada) do olho pode ser impressionável, para uma criança... no mínimo, não recomendável...
 
Paciência, fica o mistério no ar. Ainda assim penso que eles sabem que, com ou sem óculos, estou sempre lá...a vê-los!!

sábado, 13 de junho de 2015

A Felicidade



O Martim estava naqueles dias. Não parava quieto. Não parava de falar. O rapaz estava, sem dúvida, animado. A certa altura coloco um vídeo no computador. O computador estava na cabeceira da mesa, o Martim sentado num lado, eu no outro. Expliquei o que iam ver, todos ficaram em silêncio menos - claro - o Martim. Já estava pelos cabelos... 

- Martim, pára! - Disse-lhe num tom sério de quem atingiu o limite.

O menino com o ar mais normal, mais sincero, responde:
- Ó teacher, eu estou feliz. 

: ) 

Não consegui evitar. Sorri com a resposta dele. Depois comecei a rir quase à gargalhada. Ele percebeu que teve piada e continuou:
- Estou feliz, estou feliz. Eu estou feliz.

Coloquei o ar mais composto que consegui e segui com a aula. Tinha de ser. Mesmo se pudesse responder ao Martim, ele não entenderia. É só uma criança e há coisas que só os adultos entendem. Faço-o agora: 

Sabes, Martim, é óptimo saber que estás feliz. Todas as pessoas deviam dizê-lo (quase como todas o deveriam ser). Mas isso não acontece. Ainda assim não penses, meu menino, que isso é razão para validar as tuas traquinices!! 



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Do Céu (ao Inferno)

Os miúdos (okay, é mais as miúdas) adoram o Frozen. (Como não gostar?) Quando temos algum tempo livre, mostro-lhes algumas das canções deste filme em inglês. Numa dessas canções, passa-se a cena em os pais da Ana e da Elsa morrem. 

Os meus alunos entenderam que os pais das meninas morrem. Alguns fizeram questão de comentar. O que disseram? Frases curtas e simples, como só as crianças sabem. Do tipo, "os pais morreram". Alguns acrescentavam um ohhh", mas a coisa ficava por ai. Excepção (há sempre uma) para o episódio que vou narrar. 

Certo dia, depois de vermos o dito vídeo, uma menina lembrou que os pais da Elsa e da Ana tinham morrido, mas que não fazia mal porque estavam no céuConcordei e acrescentei que eram estrelinhas a tomar conta das filhas deles. Alguém lembrou-se dos anjinhos. 

Boa, afinal as pessoas que vão para o céu transformam-se em estrelas ou anjos?! 

Foge, professora teacher, foge antes que eles se lembrem de perguntar isso. Lá disse que eram estrelinhas e anjinhos e tentei mudar de assunto, mas ouço a palavra inferno. Quem falou? Parece-me que foi o Eduardo. 

- O que estás a dizer, Eduardo?
- Há o inferno.
- E...?
- Quem porta-se mal vai para o inferno.
- O que é o inferno?
- É um sítio que tem fogo e onde vão os que se portam mal. 

O Eduardo disse isto, como aposto, lhe disse a pessoa que lhe vendeu a ideia. Num tom sério de quem quer meter medo.  

Infelizmente, não lembro exactamente o que respondi ao Eduardo. Mas penso ter-lhe descartado essa ideia. Não gosto disso do inferno e muito menos dessas ameaças que se colocam na cabeça das crianças. 

A isso chama-se amedrontar para que as crianças façam o que os adultos querem. É um caminho fácil e cobarde. Muitas vezes também é perigoso. Por exemplo, dizer que os ciganos são maus com certeza criará nos mais novos o preconceito por esta raça. 

Não é fácil explicar a morte. É mesmo impossível, porque o que sabem os vivos disso?! Mas também não é nada fácil desmontar ideias inconcebíveis da cabeça dos miúdos, provavelmente, ditas por aqueles que os miúdos mais respeitam. 

Enfim, estar na aula a relaxar com um vídeo querido e, de repente, começar a discutir a morte (e outras questões daí decorrentes) não é como passar do céu para o inferno. Não é. Mas também não andará longe.   

sexta-feira, 5 de junho de 2015

É pró menino, É prá menina (parte 2)

I

Por altura do Natal perguntei aos meninos o que queriam que o Father Christmas colocasse no seu sapatinho. Chegou a vez do Afonso responder:
- A Princesa Sofia.
- Uma boneca da Princesa Sofia?
- Sim.
- Muito bem. E tu, Filipa?
- Um avião

Alguém exprimiu algum comentário de desaprovação? Algum comentário depreciativo sobre a escolha destes meninos?! Não. 

Ah, a Filipa e o Afonso são namorados (ou eram na época).

II

Numa outra escola, coloquei a mesma questão. O Simão - que até então mal conhecera a sua voz (era difícil arrancar-lhe uma palavra) - ficou numa excitação. Lançou-se na mesa para chamar a minha atenção e disse algo que não percebi.
- Não entendi. O que queres Simão?
- Uma cozinha!
- Uma cozinha de brincar?
- Sim!

Mais tarde lembrou-se e acrescentou:
- Também quero panelinhas.

Novamente: Alguém exprimiu algum comentário de desaprovação? Algum comentário depreciativo sobre a escolha deste menino?! Não. 


quarta-feira, 3 de junho de 2015

De hoje

Éramos três. A Iara a pintar um segundo trabalho, o Bruno ia, atrasado, no primeiro. Estava a ajudá-lo. 

A Iara começou a frequentar as aulas há pouco mais de dois meses. É uma menina esperta que fala num um tom sério, mas, dá para perceber, tem pinta de traquina. Hoje tivemos uma conversa que podia ter tido com qualquer outro miúdo. Porquê? É uma conversa com rumo improvável:

- Teacher, gosto muito do teu nome.
- Ai sim?
- Gosto de Teacher. 
- Sabes, Iara, o meu nome não é esse. O meu nome é (disse o meu nome).

Pequena pausa.

Virei costas e continuo a ajudar o Bruno. De novo a menina:
- (Diz o meu nome), sabes, gosto mesmo de vir aqui.
- Ao inglês?
- Sim, Gosto mesmo.
- Ainda bem! Também gosto muito de te ter cá. Para o ano tens de vir mais cedo. 

Nova pausa.

- Eu não quero ter pinta vermelha.
- O quê?
- Pinta vermelha.
- E porque terias?
- Quando um menino não vem à escola tem pinta vermelha no quadro.
- Aaah...Mas isso só tens se tiveres doente, porque não podes mesmo vir.
- Eu estou doente e vim.
- Que tens? Estás constipada?
- E tenho tosse!
- Isso é estar pouco doente. Muito doente é, por exemplo, ter febre. Ai não consegues mesmo vir. 
- Pois. Mas eu já vim há hora do almoço. (???) Que quer dizer thanks?
- Obrigada.
- E merci?
- Obrigada, mas em francês. 
- Merci beaucoup.
- Muito obrigada, francês. 
- Rien rien.

Sorri. Será que íamos percorrer todo o dicionário?!

- Tua sabes muitas línguas Iara.
- Também sei isto: newkbfiub fewih3 uiubefiu. (Sim, algo completamente imperceptível.)
- Aaaah....

segunda-feira, 1 de junho de 2015

É pró menino, É prá menina

O azul é dos meninos. O rosa é das meninas.
Os meninos podem pintar de azul. Os meninos não podem pintar de cor de rosa.
As meninas podem pintar com as cores que quiserem.

É assim? Não.
Deve ser assim? Obviamente que não.

Nestes dois anos de ensino tenho tido muitas e boas surpresas. Uma dessas surpresas tem a ver como as crianças (quase) não terem preconceitos.

Nas minhas aulas, quando fazemos trabalhos que exigem pintar, surgem, por vezes, estas conversas:
- O x está a pintar de cor-de-rosa?!
- E então?! - Indago eu.
- Ele é menino, o rosa é para as meninas.
- Não tem nada a ver. Eu sou menina e adoro o azul. Isso faz de mim um menino?!
- Hum... não.
 
Normalmente, tenho este diálogo com os meninos mais velhos. Acho mesmo que nunca tive com uma rapariga ou com rapazes pequenos, isto pode querer dizer alguma/muita coisa....
 
Outra curiosidade é já ter acontecido o miúdo indignado acabar por pintar também com essa cor. Isto também tem muito que se lhe diga...
 
Hoje, depois de meses com estas crianças, se indignações deste tipo surgem, são os próprios colegas a responderam ao "indignadinho". Só abro a boca para mostrar concordância.
 
O que me deixa feliz no meio disto tudo é ver como uma simples justificação os satisfaz. Basta fazê-los pensar um pouco para matar uma espécie de bicho-preconceito que estava a nascer naquelas cabeças. Eles entendem e seguem em frente sem qualquer problema.
 
É por estas (e por outras) que a minha teoria tem cada vez mais força. Essa teoria é de que quanto mais velhos ficamos, mais nos estragamos. Deixamos que a nossa cabeça se mine por certos bichinhos (preconceitos, infelizmente, estão incluídos)!
 
Espero, com sinceridade, que neste dia das crianças nos lembremos do que é ser criança e, já agora, que possamos todos os dias regressar a essa parte de nós. Tenho para mim que a nossa parte infantil é muito mais do que gostar de brincar ou até de fazer birras (sim, porque nós adultos também temos as nossas birras). A nossa criança é a liberdade de ser feliz com pouco, com o essencial. De ver o que realmente faz bem e isso, felizmente, também é pró menino e prá menina.